Por meados de Fevereiro de 2002, por um mero acaso, encontrei o engenheiro Campos, que por sinal fora o gestor responsável pela exploração das instalações do Edifício Marconi desde a data da sua inauguração até Junho de 1999, altura em que, com toda a sua equipa, foi ocupar um outro edifício no novíssimo Parque das Nações. É sempre gratificante o reencontro de velhos amigos, sobretudo quando muito os une, como era o caso. Não apenas nos interessávamos ambos pelo mundo dos projectos e das obras, como também a temática da literatura nos unia. Conversa atrás de conversa confidenciei-lhe o projecto que então me entusiasmava: a escrita de um romance em que as grandes personagens, as figuras dominantes, fossem o projecto e a obra de construção de um grande edifício; e onde os sentimentos, as emoções, as angústias, as alegrias e as tristezas, a sorte e o infortúnio, de todos quantos a ele estiveram ligados ganhassem uma outra dimensão. Na realidade quantas vezes passamos perto de um monumento ou de uma grande construção e nos lembramos daqueles que a conceberam e a ergueram? Quase nunca! O que invariavelmente nos vem à memória ou ao consciente é sim o acto celebrado ou o nome da entidade que o ocupa. O facto curioso é
que, ao ouvir a história que lhe contei, sobre aquele edifício da Feixes Hertzianos, exclamou:
- Impressionante! Até parece a história do projecto e da construção do Edifício Marconi.
Contou-me então o que eu já sabia: a Marconi saíra do edifício por troca com outra empresa do grupo a que ambas pertenciam. A TMN viera ocupar o edifício que fora construído para sede da Marconi e esta, que ficara com o ramo das comunicações internacionais, mudara-se para o edifício da Portugal Telecom no Parque das Nações. Referi-lhe então o sentimento de perda experimentado por muitas das personagens, - Campelo sentiu que o edifício “deixara de ser seu” no dia em que assistira à ascensão do arcanjo Gabriel - , e o engenheiro Campos, de olhos humedecidos de comoção, confidenciou-me:
- Tem graça! Nem imagina o que eu senti no dia em que encaixotei os últimos dos meus documentos e olhei pela última vez aqueles espaços que eu percorri durante tantos anos. Foi cá um nó na garganta, um estranho aperto no coração, que só eu sei. E todos os outros colaboradores que me acompanharam para as novas instalações sentiram o mesmo. Sabe que eu até escrevi um texto, que lhes enviei por “e-mail”, como se eu tivesse sido capaz, e acho que fui, de captar um pouco dos sentimentos que o edifício estaria sentindo por nos ver partir sem retorno?
Algum tempo depois quis de novo o acaso que nos voltássemos a encontrar. Questionei-o então:
- E esse tal texto da despedida do edifício Marconi?
O engenheiro Campos consultou a pasta adequada no seu computador pessoal e de forma tristemente alegre, com aquela alegria que resulta da mistura com a saudade e a nostalgia, entregou-me a página que tempos atrás escrevera.
- Posso divulgar esse escrito? - perguntei.
- Ficarei feliz por isso - retorquiu sorrindo o engenheiro Campos.
- Então está prometido!
Eis o cumprimento de tal promessa:
Local: Av. Álvaro Pais, nº2, em Lisboa.
Data: 25 de Junho de 1999
(Edifício Marconi, com ar grave e sério)
Amigos:
Apesar do convívio diário de todos estes anos, nunca eu, Edifício Marconi, me tinha dirigido directamente a vós. Faço-o agora, nesta derradeira oportunidade que me resta, com a tristeza da separação, mas também com a alegria da amizade.
Revejo num instante todos os acontecimentos e peripécias por que passámos juntos, os bons e os maus momentos que partilhámos, as alegrias e as tristezas, nove anos de vida conjunta e plena que, no final, valem por si mesmos e perdurarão para sempre na nossa memória.
Nunca vos esquecerei, nem a maneira como me trataram, desde aqueles cuja missão era cuidar de mim, até todos os que me usufruíram e no meu interior passaram grande parte deste período das suas vidas. Pelo que me toca, acredito que vos servi da maneira que melhor pude e soube, suportando-vos com a minha estrutura, acolhendo-vos nos meus espaços, modulando o vosso ambiente com os meu sistemas.
(Edifício Marconi, em tom alegre)
Mas a vida tem de continuar! Vire-se a página, e siga, cada qual, o seu destino. À Marconi, e a todos individualmente, desejo as maiores felicidades, a concretização dos vossos sonhos e o esfumar dos vossos receios, e que encontrem, noutro semelhante meu, uma vivência pelo menos igual à que eu vos proporcionei. Quanto a mim, servirei outros, mas guardarei para sempre a recordação única daqueles que foram a minha primeira razão de ser. E terei, pelo menos, o consolo e a honra de ostentar na minha fachada o Nome que estará, para sempre, gravado nos vossos corações.
Até sempre, e que a boa sorte vos acompanhe!
(Edifício Marconi, banhado em lágrimas)
Oh, por favor, não vão já embora! Fiquem só mais um bocadinho...
Mas acabaram por ir. Porque tudo tem um fim. Partiram, como antes o fizeram Rui Matias e Matoso, Santinhos e Rodrigo da Maia, Peladinho e Pedro Soares, Mascarenhas e Aparício, Faísca e Rufino, Campelo e Gouveia, este último de forma derradeira.
Etéreos e fugazes foram as passagens de Feliciano e de Carraça, de Subtil e de Avelino, de Mendes e do Libório, de Rufia e do Mosquito. Como igualmente foram as de centenas de operários anónimos dos quais nem chegámos a conhecer o nome. Mais sorte teve Joaquim Rodrigues, mas também esse já passou.
Os homens passam. As obras, e as memórias das obras, é que vão ficando. Mas nada, mesmo nada, é eterno; nem o maravilhoso caos de onde provimos escondido para além dos insondáveis caminhos que desconhecemos.
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