NO PRINCIPIO ERA UM TRAÇO (92)

29.07.11

 

 

 

 

Por meados de Fevereiro de 2002, por um mero acaso, encontrei o engenheiro Campos, que por sinal fora o gestor responsável pela exploração das instalações do Edifício Marconi desde a data da sua inauguração até Junho de 1999, altura em que, com toda a sua equipa, foi ocupar um outro edifício no novíssimo Parque das Nações. É sempre gratificante o reencontro de velhos amigos, sobretudo quando muito os une, como era o caso. Não apenas nos interessávamos ambos pelo mundo dos projectos e das obras, como também a temática da literatura nos unia. Conversa atrás de conversa confidenciei-lhe  o projecto que então me entusiasmava: a escrita de um romance em que as grandes personagens, as figuras dominantes, fossem o projecto e a obra de construção de um grande edifício; e onde os sentimentos, as emoções, as angústias, as alegrias e as tristezas, a sorte e o infortúnio, de todos quantos a ele estiveram ligados ganhassem uma outra dimensão. Na realidade quantas vezes passamos perto de um monumento ou de uma grande construção e nos lembramos daqueles que a conceberam e a ergueram? Quase nunca! O que invariavelmente nos vem à memória ou ao consciente é sim o acto celebrado ou o nome da entidade que o ocupa. O facto curioso é

que, ao ouvir a história  que lhe contei, sobre aquele edifício da Feixes Hertzianos, exclamou:

- Impressionante! Até parece a história do projecto e da construção do Edifício Marconi.

Contou-me então o que eu já sabia: a Marconi saíra do edifício por troca com outra empresa do grupo a que ambas pertenciam. A TMN viera ocupar o edifício que fora construído para sede da Marconi e esta, que ficara com o ramo das comunicações internacionais, mudara-se para o edifício da Portugal Telecom no Parque das Nações. Referi-lhe então o sentimento de perda experimentado por muitas das personagens, - Campelo sentiu que o edifício “deixara de ser seu” no dia em que assistira à ascensão do arcanjo Gabriel - , e o engenheiro Campos, de olhos humedecidos de comoção, confidenciou-me:

- Tem graça! Nem imagina o que eu senti no dia em que encaixotei os últimos dos meus documentos e olhei pela última vez aqueles espaços que eu percorri durante tantos anos. Foi cá um nó na garganta, um estranho aperto no coração, que só eu sei. E todos os outros colaboradores que me acompanharam para as novas instalações sentiram o mesmo. Sabe que eu até escrevi um texto, que lhes enviei por “e-mail”, como se eu tivesse sido capaz, e acho que fui, de captar um pouco dos sentimentos que o edifício estaria sentindo por nos ver partir sem retorno?

Algum tempo depois quis de novo o acaso que nos voltássemos a encontrar. Questionei-o então:

- E esse tal texto da despedida do edifício Marconi?

O engenheiro Campos consultou a pasta adequada no seu computador pessoal e de forma tristemente alegre, com aquela alegria que resulta da mistura com a saudade e a nostalgia, entregou-me a página que tempos atrás escrevera.

- Posso divulgar esse escrito? - perguntei.

- Ficarei feliz por isso - retorquiu sorrindo o engenheiro Campos.

- Então está prometido!

 Eis o cumprimento de tal promessa:

  Local: Av. Álvaro Pais, nº2, em Lisboa.

Data: 25 de Junho de 1999

(Edifício Marconi, com ar grave e sério)

Amigos:

Apesar do convívio diário de todos estes anos, nunca eu, Edifício Marconi, me tinha dirigido directamente a vós. Faço-o agora, nesta derradeira oportunidade que me resta, com a tristeza da separação, mas também com a alegria da amizade.

Revejo num instante todos os acontecimentos e peripécias por que passámos juntos, os bons e os maus momentos que partilhámos, as alegrias e as tristezas, nove anos de vida conjunta e plena que, no final, valem por si mesmos e perdurarão para sempre na nossa memória.

Nunca vos esquecerei, nem a maneira como me trataram, desde aqueles cuja missão era cuidar de mim, até todos os que me usufruíram e no meu interior passaram grande parte deste período das suas vidas. Pelo que me toca, acredito que vos servi da maneira que melhor pude e soube, suportando-vos com a minha estrutura, acolhendo-vos nos meus espaços, modulando o vosso ambiente com os meu sistemas.

(Edifício Marconi, em tom alegre)

Mas a vida tem de continuar! Vire-se a página, e siga, cada qual, o seu destino. À Marconi, e a todos individualmente, desejo as maiores felicidades, a concretização dos vossos sonhos e o esfumar dos vossos receios, e que encontrem, noutro semelhante  meu, uma vivência pelo menos igual à que eu vos proporcionei. Quanto a mim, servirei outros, mas guardarei para sempre a recordação única daqueles que foram a minha primeira razão de ser. E terei, pelo menos, o consolo e a honra de ostentar na minha fachada o Nome que estará, para sempre, gravado nos vossos corações.

Até sempre, e que a boa sorte vos acompanhe!

(Edifício Marconi, banhado em lágrimas)

Oh, por favor, não vão já embora! Fiquem só mais um bocadinho...

 

Mas acabaram por ir. Porque tudo tem um fim. Partiram, como antes o fizeram Rui Matias e Matoso, Santinhos e Rodrigo da Maia, Peladinho e Pedro Soares, Mascarenhas e Aparício, Faísca e Rufino, Campelo e Gouveia, este último de forma derradeira.

Etéreos e fugazes foram as passagens de Feliciano e de Carraça, de Subtil e de Avelino, de Mendes e do Libório, de Rufia e do Mosquito. Como igualmente foram as de centenas de operários anónimos dos quais nem chegámos a conhecer o nome. Mais sorte teve Joaquim Rodrigues, mas também esse já passou.

Os homens passam. As obras, e as memórias das obras, é que vão ficando. Mas nada, mesmo nada, é eterno; nem o maravilhoso caos de onde provimos escondido para além dos insondáveis caminhos que desconhecemos.

 

 

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publicado por jose murta lourenço às 10:43

NO PRINCIPIO ERA UM TRAÇO (91)

25.07.11

 

 

Naquela manhã de doze de julho do ano de dois mil, exactamente dez anos após a inauguração oficial do edifício da Feixes Hertzianos, Pedro Soares saiu na estação do metropolitano da Baixa- Chiado. Acabara de pôr o pé no cais quando estas palavras lhe entraram pelos ouvidos adentro:

- Esta estação, foi o avô quem a fez!

Pedro olhou na direcção da voz. Viu um homem de meia- idade, de mão dada com um garoto. O pequeno abriu muito os olhos, mas, porque o seu avô era o maior, acreditou. O homem, vendo a incredulidade do pequeno, apressou-se a acrescentar:

- Não fui só eu! Foram muitos mais. Foram arquitectos, engenheiros, operários, artistas.

Pedro Soares desejou correr para o homem e dar-lhe um enorme abraço. Aquela cara, aquele cara só poderia ser a de Joaquim Rodrigues, o armador de aço que ele conhecera na obra há mais de dez anos. Correu na direcção do outro e sem hesitar:

- Joaquim Rodrigues!

- Desculpe, está enganado. Está-me a confundir com alguém. O meu nome é Américo, Américo Trancoso.

E lá foram. O avô e o neto. E um e outro eram no presente a imagem do passado construído e do futuro por construir.

 

Pedro Soares desceu a pé até ao Rossio. A caminhada pela rua do Carmo teve a duração do Anjo de Josibel subindo desde a base até ao topo. A música não era contudo de Vangelis. Era de uma flauta, de uma gigantesca flauta, de muitos tubos como os que pendem, dourados, no alçado tardoz da Feixes Hertzianos. Nunca Pedro contou este sonho a quem quer que fosse, mas um dia sonhou que o Gouveia, nas horas em que vagueava de noite, cumprindo a sua obrigação de fantasma, os vinha soprar na esperança de se certificar que estavam funcionando bem os tubos de queda das águas pluviais.        

 

 

                 

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publicado por jose murta lourenço às 09:49

NO PRINCIPIO ERA UM TRAÇO (90)

20.07.11

 

 

 

 

19· Abril de 2000. Do incêndio do Chiado quase não restam sinais. Há muito que já lá vai a inauguração do edifício da Feixes Hertzianos. Muita água correu desde então. O Chiado está de cara lavada e esquecido do fragor dantesco das chamas. O metropolitano estendeu-se pelas entranhas da cidade. Máquinas construtoras de túneis, tornaram-se verdadeiras heroínas ao contrário do que sucedeu com os homens que as guiaram. Esses ficaram na sombra como antes acontecera a Joaquim Rodrigues. A Maria Lisboa, a Estrela do Oriente, a Lili Marlene, a Moira, deixaram-se guiar, ou guiaram(?), os homens toupeiras no fundo dos túneis, e um dia, sem se saber como, os comboios começaram a vomitar pessoas de dentro dos seus bojos, no Chiado, no Rato, no Cais do Sodré, no Parque das Nações e aí vão eles, zona norte acima, a caminho de Odivelas

O edifício da Feixes Hertzianos foi conhecendo sucessivas administrações; e um dia, conheceu mesmo novos ocupantes, de uma outra empresa que não a primeira, a que fora responsável pelo desencadear do processo que culminaria na construção do edifício. Rodrigo da Maia retirou-se. Continua pregando as mesmas ideias, os mesmos conceitos, os mesmos métodos que permitiram projectar e construir a obra sem que os prazos ou os custos tivessem sido ultrapassados e sem que ele tivesse contribuído para a lista negra de mortos na guerra das obras. De quando em vez, o  edifício vai aparecendo nos jornais, normalmente em cadernos ou secções dedicadas a temas técnicos; ou em revistas da especialidade. A espaços, um qualquer jornal publica uma entrevista com o senhor engenheiro Euristides Risonho, especialista em “edifícios inteligentes”; e ao lado da cara sorridente de tão ilustre engenheiro lá vem pespegada a imponente fachada do edifício, sem uma qualquer referência a quem o projectou, ou a quem tal obra conduziu. Os leitores exclamarão, ao ler pelos menos as gordas: - Este senhor é inteligentíssimo. Foi ele quem deu a inteligência a este belo edifício. Eu conheço o local. Sei onde fica. Ali perto da Feira Popular. De uma outra vez, se o artigo for sobre o controlo de qualidade e a gestão de obras, ao lado de uma outra cara sem vergonha, administrador de uma empresa de gestão, não aparece ao menos a fotografia de uma simples moradia de que tenha controlado a qualidade. Não. Nem pensar. Aparece por magia, de novo, a fachada do mesmo edifício, o da Feixes Hertzianos, a que foi totalmente alheio, e outra vez sem referência alguma a quem lhe controlou de facto a qualidade.

 - Que edifício tão bonito! E foi este senhor, que por acaso é do Porto, quem o fiscalizou e lhe controlou a qualidade. Que maravilha! Que inteligência! Tem mesmo um ar vivaço e esperto!

Pedro Soares, Faísca e Campelo continuam trabalhando juntos na empresa que fora fundada por Rodrigo da Maia. Mas embora se revoltem e se sintam enojados com tais notícias, e tais métodos fraudulentos de publicidade, têm tudo contra si. Não possuem a força do mestre nem os tempos estão de feição para as ideias de Rodrigo da Maia. Na realidade, desde o projecto e a condução do edifício, que não voltaram a ter um contrato de semelhante envergadura em simultâneo para as duas actividades. Quase ninguém pára para pensar e ponderar. Generaliza-se o improviso. Cultiva-se a irresponsabilidade. Estilhaçam-se todos os prazos. Ultrapassam-se todos os custos. Continua-se a contar os mortos -  um por cada dia do ano em 1999 - os oficiais, porque os clandestinos não entram nas estatísticas.  A qualidade é um pretexto para colóquios e conferências. O lema sagrado continua sendo: “quem projecta não fiscaliza; quem fiscaliza não projecta”. Alguém parece interessado em dividir, para alguém reinar! O conceito de condução, de comando, quer na fase de projecto quer na de obra, se pouco existiu, foi completamente riscado do mapa. Ninguém quer ou se sente capaz de assumir tal missão. E quem sabe e quer não tem força nem “argumentos” para vencer os interesses instalados. Os deuses das obras estão loucos. Mais do que loucos, andam bêbados e divertem-se brincando às obras,  atirando bombinhas prestes a explodir nas mãos de cada vez mais intervenientes completamente cegos a tudo quanto lhes não diga directamente respeito. O dono de obra não define o que quer, e nem se preocupaem fazê-lo. Oprojectista não cuida de saber o que quer o promotor, faz o que ele não quer, e acaba por desfazer e fazer vezes sem conta até acertar o que deveria ter sido e não é. Planeamento, não existe. As obras começam por onde dá jeito. Segue-se a fase de todos ao molho e féem Deus. Depoisde tanta guerra, em que ninguém se entende, até porque se desconhecem os exércitos em conflito, um dia a obra acaba, porque tem que acabar e entre mortos e feridos alguém deverá escapar. Quando o tempo aperta, e não há mais dias de trabalho, finge-se que tudo está pronto, enaltece-se o saber desenrascar dos lusitanos, fazem-se horas extraordinárias até os olhos se fecharem de sono, uns anos depois tudo fica como deve ser e os milhões que a mais se gastaram foram obra do acaso, um acaso imprevisto, dramático, de natureza técnica que a ciência ainda não está em condições de  explicar. De Rui Matias não mais se ouviu falar. Matoso continua oleoso e Mascarenhas, incompatibilizado com Pedro Soares, instalou-se por conta própria. Cristóvão Peladinho, embora reformado, continua a deslocar-se todos os dias à empresa, sempre disponível, sem pronto a ajudar, como se a sua vida estivesse ligado àqueles recantos e ela se sumisse rapidamente se deles se privasse. Pedro, uma vez ou outra, por razões profissionais, continua a deslocar-se à Baixa, como em tempos o fez, aquando das respostas ao inquérito por parte de Santinhos.

 

 

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publicado por jose murta lourenço às 10:37

NO PRINCIPIO ERA UM TRAÇO (89)

13.07.11

 

 

 

Sorridente, cumprimentou-os efusivamente, levou a mão ao bolso, e exclamou:

- Tenho aqui uma surpresa!

Não esperaram muito pela revelação. Lentamente, com emoção, vincando as palavras, Pedro Soares leu:

“No princípio era um traço

 uma planta

 um esboço

 gérmen na ponta de compasso

 figura distante de colosso.

Mas a forma estava lançada

 curva sinuosa

 ondulante

 feixe de ondas propagante

 em metal branco projectada.

E ele aí está

 vestido de noiva branco

 eterno branco monte

 erguido sobre quantos

 por ele sofreram

 e lutaram.”

Naquela noite, Pedro Soares passou horas a fio olhando de perto as fachadas iluminadas, a água jorrando em cascatas de luz  sob a entrada, a imponente esfera que parecia ir rolar, a todo o momento, avenida abaixo, os grandes canudos metálicos iluminados e de cujas bases se erguiam verdadeiras trombas de água fresca e cristalina, o anjo nas alturas, olhando, sem cabeça e sem olhos, as colinas de Lisboa. E o edifício, brilhando na noite, como se fosse a única luz na escuridão. Adormeceu e sonhou que ascendia ao céu nas asas do Arcanjo São Gabriel.

 

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publicado por jose murta lourenço às 09:17

NO PRINCIPIO ERA UM TRAÇO (88)

08.07.11

 

 

Os luxuosos carros oficiais, escoltados por batedores da polícia guinchando irritantemente as suas sirenes, começaram a chegar bem cedo. A elite da Feixes Hertzianos aguardava no grande átrio de entrada os ilustres convidados. A verdura dos jardins que ladeavam a larga escadaria ainda cheiravam a fresco e dos lagos, ligados por suaves cascatas, brotavam repuxos alegres e refrescantes. O poder temporal entrou de braço dado com o espiritual: eis no átrio, o ministro das obras públicas, empinado sobre os sapatos para parecer mais alto, e sua eminência, o cardeal patriarca de Lisboa! Nenhum dos convidados, tão depressa passaram, deverá ter reparado na cinta de aro dourado que torneava um dos grossos pilares capeados a granito. Olhos curiosos, e porventura terão existido alguns, poderiam ler: “Edifício Hertziano”; responsável na CML: eng. Feliciano Paiva; arquitecto: Rui Matias; projectos de instalações técnicas e condução da obra: Rodrigo da Maia. A comitiva dirigiu-se para a placa interior, coberta pela bandeira nacional, e a qual, depois de destapada, foi devidamente aspergida. Abençoados ficaram pois, para o futuro, os dizeres apropriados ao acto:” Inaugurado a doze de Julho de mil novecentos e noventa, por Sua Excelência o Senhor Ministro das Obras Públicas”. A sessão solene da inauguração prosseguiu no auditório, na fábrica de sonhos de Josibel. O mago iria desvendar finalmente o mistério do seu sorriso aquando da ascensão do anjo; e o que faria ele de máquina de filmar a tiracolo.

Sem querer, ou porque o tenha querido, Josibel trouxe para dentro daquele auditório a maior epopeia que alguém, a propósito daquela inauguração, poderia contar. A música de Vangelis entrou por todos os lados, invadiu o espaço, introduziu-se na alma dos  presentes. As imagens sobrepostas, ao ritmo de música angélica, mostravam um anjo subindo, subindo, e um edifício crescendo, crescendo, desde o instante em que nada mais era do que um enorme buraco e o riacho ainda mal se escondera, até ao instante em que as barretas começaram a ser cravadas e os muros de contenção se ergueram, e o anjo ia subindo, os pilares e as lajes também, a música, sem que se desse por ela, era cada vez mais envolvente, e a pouco e pouco surgiram os primeiros vidros, e os painéis imaculados das fachadas, e o anjo estava quase a chegar ao cimo, a música era o ar que se respirava, o vestido branco cobria agora todo o corpo, a grande escadaria de vidro acompanhava o anjo na subida, até que, levemente, o Arcanjo São Gabriel lhe pousou no colo e ali ficou como se fosse a tampa de um elegante e delicado frasco de perfume. Josibel marcara o acto da inauguração da forma mais sublime e mais nobre: trouxera para dentro daquele auditório a história, a verdadeira história da construção, e os seus mais importantes protagonistas. Tudo o mais, foram discursos de circunstância. Cristhianne Hertz, bisneta do físico alemão do qual herdou o nome, declarou:

- Em primeiro lugar quero agradecer o convite que me foi endereçado pelo Ex.mo Senhor Presidente do Conselho de Administração da “Feixes Hertzianos”. Tenho a certeza de que se o meu bisavô fosse vivo, e pudesse ver este belo edifício, admirar-se-ia, por ser possível, na Espanha de hoje (risos), tão grandiosa e magnífica construção.

Os convidados enchiam por completo o auditório mas da empresa de Rodrigo da Maia, apenas Pedro Soares tinha recebido convite. Na mesa da presidência, era a hora das estrelas brilharem: o presidente da Feixes, o seu braço direito Adérito, os restantes administradores, o arquitecto Rui Matias, a convidada bisneta de  Hertz plena de confusões geográficas, os senhores ministros, o do governo terreno e o do eclesiástico. As intervenções foram-se  sucedendo mas Pedro Soares, de mansinho, no intervalo entre dois discursos, esgueirou-se colado às paredes e saiu da sala. Na avenida, frente à porta principal, aglomerava-se um pequeno grupo de curiosos, e entre eles, Pedro reconheceu alguns dos operários da obra; também ali estavam vários dos delegados técnicos.

 

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publicado por jose murta lourenço às 09:05

NO PRINCIPIO ERA UM TRAÇO (87)

05.07.11

 

 

- Campelo, sente-se bem? - indagou Pedro Soares.

- Estou bem, engenheiro, estou bem. O que acontece é que ao ver subir o anjo sinto que muito em breve a obra deixará de ser minha; quero dizer, deixará de ser a “nossa obra”. É como se o anjo estivesse anunciando a próxima separação entre pais e filhos-e Campelo reprimiu as lágrimas a custo. Pedro, procurando conter a emoção que de si igualmente se apoderara, respondeu-lhe de forma algo misteriosa:

- É assim também a vida dos autores; a obra apenas lhe pertence enquanto só ele a conhece, com ela se deita e com ela se levanta; a partir do momento em que a oferece aos outros nunca mais a obra será sua; mas também de que serviria fazer uma obra sepultada à nascença?

Campelo disse que sim; mas não ouviu nada do que o engenheiro lhe pregara, pregados que lhe ficaram os olhos no anjo que pousava naquele preciso momento na base do topo da escada de vidro.

Desde que a nova administração tomara posse que Santinhos se foi eclipsando cada vez mais. Do plenipotenciário que fora, representando a Feixes Hertzianos no diálogo permanente com a empresa de Rodrigo da Maia, ficara-lhe apenas a fama de ter tido tal missão desde o início do processo, primeiro durante o concurso para selecção dos projectistas, depois ao longo do projecto propriamente dito, finalmente na fase dos concursos para a obra e durante a preparação e  arranque da mesma. Contudo, desde há alguns meses, Santinhos perdera quer o “pleno” quer o “potenciário”. A sua palavra deixou de riscar , passando de figura de proa a mero auxiliar, muito secundarizado, de Adérito Antunes, o novo braço-direito da administração. Adérito, economista de formação, era um gestor da nova vaga. Hábil no trato, sem nunca desvendar por inteiro as suas intenções ou objectivos, frio e calculista, bem cedo tratou de chamar a si os louros da gestão de um processo que herdara quase maduro e que rapidamente usurpou, como se desde o princípio dos princípios ele tivesse sido omnipresente e Santinhos nunca tivesse existido.

Adérito Antunes solicitou a Pedro Soares que organizasse uma festa comemorativa do êxito da construção, para os técnicos e operários,-só mais tarde Pedro Soares se daria conta de que tal “festa” tivera como objectivo o separar a “plebe” dos construtores da fina nata dos “ilustres” convidados para a inauguração-,a realizar quinze dias antes data de conclusão da obra. Pedro discordou frontalmente. A verdade é que não se poderia considerar completamente concluído o que apresentava centenas de anomalias  e deficiências, por muito pequenas que fossem. Os controladores de qualidade tinham entregue os seus relatórios de vistoria com várias páginas de imperfeições e a empresa de Rodrigo da Maia acrescentara outras tantas. Mas Adérito Antunes, aparentemente preocupado em que fossem reconhecidos os méritos de quem na obra tanto trabalhara, insistiu com tal veemência que Pedro Soares acabou por ceder. A festa, realizada na segunda cave, num dos pisos de estacionamento, reuniu em torno de uma mesa improvisada, montada para o efeito, várias centenas de operários.  Durante duas horas, os pastéis de bacalhau e o vinho tinto servido em copos de plástico não reutilizável, tudo pago com uma pequena parte da verba sobrante de imprevistos, criaram a ilusão de que afinal a obra estaria pronta, as correcções a fazer seriam certamente o produto da imaginação doentia de técnicos mal dormidos e portanto mal-humorados, e o pessoal poderia descansar de vez; se por ali estavam é porque o edifício os não quereria ver partir.  Os dias que se seguiram, antes que o prazo expirasse, foram de suplício para Pedro Soares. As correcções tardavam. A apatia, o cansaço e a descompressão prematura, idêntica à que experimentam os atletas depois do corte da fita da meta, instalaram-se entre os operários, só que estes ainda não tinham completado a corrida. Tudo se ia fazendo lentamente, excessivamente devagar para as necessidades, como se afinal os executantes caprichassem em não mais querer sair daqueles locais, deles enamorados e por eles eternamente presos. Era urgente reactivar a tensão, forçar as correcções, retirar o mais depressa possível de dentro da obra os operários por ela enfeitiçados. A antecipação da entrada do novo mobiliário, a pedido da empresa de Rodrigo da Maia, e o início da transferência dos primeiros serviços, a que se seguiriam de forma escalonada os restantes, vieram dar o pretexto necessário ao objectivo que deixara de existir, e retirar Pedro Soares do embaraço.

 

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publicado por jose murta lourenço às 10:33

NO PRINCIPIO ERA UM TRAÇO (86)

30.06.11

 

Os dias do placard voavam como folhas soltas de um calendário arrastado pelo forte vento para a valeta dos tempos idos. A cinco meses da conclusão, era ciclópico o trabalho a executar. O plano das principais balizas, que fora acertado após o retomar da montagem das divisórias, encontrava-se neste estado lastimável:

- Painéis de fachada: faltam remates de cantos e todo o perímetro do centro cultural;

- Cúpula do Centro de Conferências: faltam os revestimentos a evinel dourado;

- Escada do anjo: faltam granitos e os corrimãos de latão polido;

- Ligação definitiva de esgotos: por executar;

- Divisórias, zona este, pisos0 a5: pequenos acertos por executar;

- Divisórias, zona este, pisos6 a8: três semanas de trabalho até conclusão;

- Divisórias, zona oeste, pisos6 a8: a nove semanas do fim dos trabalhos;

- Divisórias, zona oeste, pisos0 a5: mais quatro semanas após a conclusão da anterior;

- Átrios: 13 semanas para se concluírem

Seguiam-se, por aí fora, as portas em divisórias, as pinturas e envernizamentos, as alcatifas aos quadrados, as ligações definitivas de água, de energia e de esgotos, os ensaios de climatização, dos dieseis , ups e baterias, os ensaios de segurança e de elevadores, os ensaios de comando e gestão das instalações técnicas e os das instalações de comunicação; tudo isto e mais ainda: as recepções provisórias e o início do processo de transferência dos serviços da Feixes Hertzianos para o edifício acabado de concluir. Os dias remanescentes pareciam não ser suficientes para tanta coisa. Contudo, o ambiente na obra, não obstante a tensão permanente, nunca fora tão bom. Pedro Soares adoptava uma atitude mais calma, pressionante mas contida, talvez com receio de que se puxasse excessivamente a corda ela acabasse por quebrar. Idêntica atitude era a de Rodrigo da Maia, que se conservava mais do que nunca à distância, acompanhando a evolução dos trabalhos mas sem neles interferir. Porventura, a sua experiência em casos anteriores, ter-lhe-á permitido ver o que Pedro Soares não atingia, a certeza de que no estado actual da obra, e com aquele ritmo, ela  estaria controlada e dominada. Faísca e Campelo deslocavam-se mais frequentemente ao edifício em vias de conclusão. Sobre ambos recaía grande parte das vistorias e ensaios finais; além de que, um deles, por sinal o jovem Campelo, teria que assistir em nome do Gouveia aos ensaios de pressão hidráulica, aos testes de estanquicidade das tubagens de esgotos, à verificação do bom funcionamento das descargas de sanitas. Mascarenhas perdera o síndroma da dúvida metódica. Ou a obra o empurrara definitivamente para diante ou também ele se convencera de que, salvo casos pontuais de fácil resolução, tudo iria funcionar adequadamente. Peladinho já estava noutra. Ali cumprira, a seu tempo, a sua parte. Rui Matias, após os últimos esforços aquando dos projectos de alterações e do mobiliário, desaparecera de novo. Tal como Matoso, embora este tivesse vindo certificar-se de que a borboleta gigante ficaria pousada com toda a segurança e de que não haveria o risco de ela encetar qualquer voo. Provavelmente, a um e a outro, só lhes voltaremos a pôr a vista em cima no cerimonial da inauguração. Feliciano emagrecera cinco quilos; do nervoso miudinho. Mosquito e Rufia andavam irreconhecíveis. O primeiro, em lugar das picadelas venenosas, demonstrava um sentido de colaboração até aí desconhecido. Rufia, por sua vez, era a imagem da concórdia. Sem dúvida que, por muito que a todos parecesse difícil, também eles acreditavam que o almejado fim estava ao seu alcance. Com estas certezas adormecia serenamente Pedro Soares. Mas logo acordava sobressaltado, horas depois, sob o pesadelo de que o edifício se desmoronava como um castelo de cartas e que as instalações se fragmentavam e irradiavam em todas as direcções. E ele, pobre de si, impotente para as agarrar e para as pousar no sítio certo onde já tinham estado; e, pior do que tudo, Pedro Soares jamais conseguiria tapar os buracos por onde  entravam os ventos ciclónicos do caos e da destruição. De manhã cedo, se fosse domingo, ao acordar, o pesadelo abandonava-o por completo. Sozinho, como o crente que vai à missa na esperança de encontrar o templo vazio, partia a caminho da obra onde esperava encontrar muito pouca gente. Era o período ideal para de alto a baixo, de uma ponta à outra, desde a cobertura à última das caves, avaliar serenamente tudo quanto faltaria concluir. Durante três meses assim foi; mas por mais voltas dominicais que desse, nem uma só zona, nem um único compartimento, nem um só corredor ou sala, nem sequer um minúsculo cubículo, estavam totalmente prontos. Saía ainda mais desesperado do que quando entrara; mas os sessenta dias restantes ainda dariam para colmatar as faltas; e regressava ao sossego anterior. Foi assim que o foi encontrar, num maravilhoso domingo de maio, logo pela fresquinha da manhã, o primeiro ocupante do novo edifício da Feixes Hertzianos, SA. Vinha deitado sobre um enorme atrelado, a reboque de uma grua de braço curto mas de grande força. A abrir o cortejo, um outro camião ainda mais avantajado do que o primeiro, carregava uma grua de muito maior braço e de não menor potência. Algumas dezenas de anfitriões esperavam-no, certamente para o conduzirem aos seus futuros aposentos. Josibel, de câmara de filmar na mão, aprontava todos os pormenores, certamente para registar entrada tão triunfal. Havia em todo ele um largo sorriso, como se dentro da sua alma já bailassem as imagens virtuais que amanhã dariam maior grandiosidade ao que, por si só, possuía bastante grandeza. Pedro Soares não ficou só por muito tempo. Campelo acabara de chegar e colocara-se a seu lado. As gruas posicionaram-se na posição adequada, cravaram as largas sapatas sobre o terreno firme, algures sob os torrões terá gemido o riacho de dor de aperto, e iniciaram,  cada uma de sua vez, a missão que lhes competia. A mais pequena, de grande força mas curto braço, agarrou no vulto deitado e lentamente começou a pô-lo de pé. Desde esse momento nunca  mais ele voltaria à posição horizontal. De pé, sempre de pé, seria a partir daí o seu estado natural. Erguido sobre o atrelado, em posição vertical, deixou-se segurar firmemente pela outra grua, a de não menor potência, e de largo braço. Lentamente, a medo, como se quisesse aferir a quietude do vento, iniciou o Arcanjo São Gabriel a sua lenta ascensão. Felizmente que nem uma leve bonina corria; porque se tombasse não o salvariam de certeza as densas asas de bronze e de aço. Josibel continuava sorrindo. Pedro Soares deixava transparecer uma estranha euforia, como se aquele anjo em ascensão pudesse significar o remate final em tudo quanto faltava completar. Campelo estava visivelmente emocionado. O nó na garganta não se desatava e insistia em subir e descer, alargando-lhe o pescoço até o forçar a desabotoar o colarinho, como se não conseguisse respirar.

 

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publicado por jose murta lourenço às 09:06

NO PRINCIPIO ERA UM TRAÇO (85)

27.06.11

 

 

Ninguém poderá saber, nem ele mesmo o soube, o que o terá levado a dirigir-se a Feliciano nestes termos:

- Toque a sirene; quero todo o pessoal, todo sem excepção, concentrado no terreiro defronte do estaleiro! - e as palavras saíram-lhe tão firmes e decididas que o outro nem ousou questionar a estranheza de ordem tão insólita. A sirene endoideceu, terão pensado os operários que entretanto se tinham espalhado por todos os cantos dos mais de trinta mil metros quadrados de construção. Que se passaria? Que mais se poderia passar senão o enlouquecimento súbito da trombeta? Pois se ela tocara quinze minutos antes, enviando-os para os destinos do dia, porque os estaria martelando de novo com o seu silvo estridente? Mas era doidice em excesso, aquela sirene nunca mais se calar. Tão insistente e agudo foi o silvar da bicha, que os primeiros cordões humanos foram vistos a descer dos altos, outros a subir desde as caves, outros ainda arrastando os pés pelos exteriores, mas todos convergindo para o terreiro. Pedro Soares subira entretanto para a varanda do piso um, mesmo por de cima do “placard” assinalando que faltavam cento e setenta e três dias. Pedro sentiu que era tarde para voltar atrás. O que estava feito, feito estava. Fixou os olhos na multidão que engrossava, mas, porque aquela ainda estivesse demasiado agitada, deixou-se ir ficando num silêncio tenso. Até que a mole imensa acalmou; e ali ficou no terreiro, de olhos levantados cravados no varandim, expectantes, esperando por algo a que nunca tinham assistido, e muitos deles já tinham um longo  historial de obras por onde haviam passado. Foi com um silêncio de rochedo que a multidão ouviu as primeiras palavras de Pedro Soares. Parecia transfigurado. A voz era forte. Audível em todo o terreiro. Sem megafone. Sem microfone e sem altifalantes. Apenas com a boca, o fundo do estômago, a alma, e o coração. As primeiras palavras acabam de chegar:

- Faltam cento e setenta e três dias para o prazo de conclusão da obra expirar. Pedi que aqui viessem para que possam ouvir, de viva voz, o que vos quero dizer. A administração da Feixes Hertzianos anda dizendo por todo o lado, a quem a quer ouvir, que o prazo não será cumprido. Que tal é impossível. Que tudo seria diferente se em lugar de vocês estivessem na obra operários espanhóis, franceses, alemães ou ingleses. Mas convosco, com operários portugueses, incompetentes, incapazes, calões, preguiçosos, tal nunca seria possível. Pois eu quero dizer-vos que eles não têm razão. E já lhes assegurei, à minha responsabilidade, que a obra vai estar mesmo concluída na data prevista. Porque eu acredito em vós, porque vós sois tão bons operários como os melhores de qualquer país do mundo. Há ainda outra coisa que vos quero dizer. Poder-se-á pensar que esta obra, este grandioso edifício que vocês têm erguido com o vosso trabalho e o vosso suor, é da Feixes Hertzianos. Nada de mais errado. Não é, nem nunca será. Este edifício é para tal utilizador, as pessoas que nele irão trabalhar, chegarão e um dia partirão, vêm e partem; mas que ele foi construído por vós, isso é que ninguém vos pode tirar. Esta obra é pois vossa; aqui está o produto do vosso trabalho; a arte das vossas mãos; o carinho, igual ou até maior do que aquele que podeis dispensar aos vossos filhos. Este edifício é mais um dos vossos rebentos. Claro, que também o é, dos arquitectos e dos engenheiros, de escultores e de pintores; mas sem vós, ele não teria  passado de uma ideia, quando muito de riscos numa planta, de um simples esboço ou de um edifício pintadoem tela. Amanhã, quando por aqui passardes, podereis dizer com orgulho, aos vossos filhos, e mais tarde aos vossos netos:

- Este edifício tão grande e tão belo foi o vosso pai, ou o vosso avô, quem o ajudou a fazer! Infelizmente, soube hoje de um facto que muito me entristeceu. Segundo parece, aconteceu o terceiro roubo nesta obra, num curto espaço de tempo. Não vos peço que façais de polícia, muito menos de denunciantes. Apenas vos reafirmo que acredito não ser operário quem tal roubo cometeu. Nada mais vos quero dizer. Mas quero fazer-vos frontalmente, de olhos nos olhos, uma só pergunta:

- Posso contar convosco?

Um gigantesco “pode”, dito em uníssono pela multidão, ecoou naquela manhã por todas as redondezas e as lágrimas rolaram por muitas faces que há muito não experimentavam o seu sabor a sal. Joaquim Rodrigues, o armador de aço, que ainda por lá andava arrumando as lajes das centrais modificadas, enxugava-as com as costas da mão, bem sujas dos ferros que dobrara. Mas por coincidência, ou não, nunca mais se voltou a ouvir falar de qualquer roubo ou acto de destruição na obra da Feixes Hertzianos.

 

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publicado por jose murta lourenço às 09:30

NO PRINCIPIO ERA UM TRAÇO (84)

21.06.11

 

 

18· Quando faltavam cento e oitenta dias para a data aprazada, Pedro Soares, por sugestão de Rodrigo da Maia, mandou fazer uma enorme placa branca, revestida a termolaminado, e pespegou-a dependurada do parapeito da escada ao nível do piso um. A ideia de Rodrigo era ir colocando dia a dia, a enormes letras e algarismos negros, a expressão: ”Faltam n dias para a conclusão da obra”. Aumentaria desta forma o nervoso do pessoal e por conseguinte, a tensão que, segundo a sua óptica, desde que orientada num sentido positivo, seria indispensável para a manutenção de um ritmo elevado e sempre crescente, até atingir o auge na fase dos acabamentos finais, a um ou dois meses antes do dia ómega. Feliciano, com uma pontualidade suíça, encarregara-se  de rapar os dias, actualizando a distância, cada vez mais curta, logo bem cedo, cada manhã, ainda nem a sirene tocara anunciando as oito. Os trabalhos avançavam a bom ritmo e isso podia ver-se na expressão de cada trabalhador da obra, por essa altura em número superior a meio milhar. Pedro Soares sentia tal facto em muitos episódios ocasionais que envolviam as mais diferentes espécimes do pessoal. Frequentemente, numa rotina de vários meses, subia pelo lado nascente, atingia o cume, e depois, num ziguezaguear constante, percorrendo de lés a lés cada piso, uns no sentido nascente poente, outros no do ocaso para levante, corria toda a obra. Um certo dia cruzou-se a meio do percurso com um servente da Guiné. Mal o viu, arreganhou a pinha e os dentes brancos enegreceram-lhe ainda mais o negro da pele. No patamar da escada ficaram frente a frente. Disse o Guinéu: - Sinor ingeneiro, de tanto subir escada, inda fica mais branco que branco.

- Porque diz isso, homem? - quis saber Pedro Soares.

- Ora, porque aqui o preto de tanto subir e descer, inda ficou mais preto! - e lá foi, rindo escada acima, de balde vazio na mão, feliz da vida como parecia andar todo o pessoal da obra. As coisa iam correndo bem; até o tempo, estranhamente seco, sem chuva, e já lá iam dois meses sem pingo que se visse, se mostrava cooperante. Na terça-feira seguinte, destoando deste clima de doce paz, Feliciano irrompe desesperado pela sala de reuniões onde os delegados técnicos aguardavam o início da reunião semanal de obra.

- Engenheiro Feliciano, o que se passa, que está com o ar de quem fugiu de um maremoto? - questionou Pedro.

Feliciano não havia meio de desembuchar. O que quer que fosse, devia ser sério e grave. Só assim se explicaria o rosto acabrunhado e lívido que transportava. Finalmente: - Engenheiro  Pedro Soares, acabo de receber a notícia de que houve mais um roubo na  obra! Já é o terceiro. Começou por um berbequim; seguiu-se um rolo de cabos de cobre; agora foi a sanita de um administrador! - e Feliciano era bem a imagem do desalento. Pedro Soares pôs-se repentinamente sério. Acabara de entender a gravidade da situação.

 

 

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publicado por jose murta lourenço às 08:54

NO PRINCIPIO ERA UM TRAÇO (83)

16.06.11

 

 

Pedro Soares, no início da primeira reunião a que foi assistir, explicou-lhes a razão de ser de tal método:

- O registo confere responsabilidade e por consequência fomenta um melhor entendimento. Ora, realizar estas reuniões na barafunda da obra, é o mesmo que encurtar as vossas vistas. Aqui sentados, comodamente instalados em torno desta mesa, dispondo de uma acta e de uma esferográfica, poderão conquistar a distância sem a qual se olha para as coisas e não as vemos. A única desvantagem aparente é não ter o local da obra tão à mão; mas este argumento é falacioso porque todos vocês têm a sua obra na cabeça que é o melhor sítio para a conservar. Feliciano deu uma ajuda preciosa. Merece por isso ser elogiado, embora tal auxílio fizesse verdadeiramente parte da sua missão. A primeira das actas das reuniões de encarregados, foi ele quem a preparou. Separando as frentes da obra. Uma página por cada frente. Repleta de temas pendentes. Tudo seria mais simples a partir daí. Bastaria eliminar os temas resolvidos e acrescentar os novos ainda por resolver, não esquecendo a identificação do responsável, nem os diferentes interessados a que tal tema dizia respeito, nem a data da respectiva resolução. Dava gosto ver aqueles homens de mãos calejadas, de fatos de trabalho sujos, uns por ferrugem, outros de gesso e de caliça, compenetrados, com as páginas impressas frente ao nariz, escrevendo notas lentamente, com o cuidado de quem saberá pouco, mas não deseja errar. Acompanhemos a mão de mestre Libório. Acabou de escrever ”pelaca”; e mais adiante ”geisso”.

 

Estão-se a rir? Não deviam. Imaginem que são vocês quem fez a quarta classe há quarenta anos, e que desde então não mais escreveram, nem leram, a não ser de vez em quando uma carta de um familiar, de um parente, ou de um amigo. Dariam certamente os mesmos erros; ou quem sabe se ainda piores. Pela nossa parte, se em tal assunto se toca, se fomos ao ponto de coscuvilhar a placa e o gesso de mestre Libório, foi apenas para que se entenda afinal a verdadeira razão porque fugiam os encarregados das reuniões formais e da escrituração das actas. A vida tem destas coisas. Quantas vezes se receia percorrer um caminho com medo de que o não saibamos palmilhar. Depois descobrimos que o mais importante é mesmo percorrê-lo, independentemente dos pontapés na gramática, ou na vida, dos tropeções nas gralhas, ou das quedas, e então já não queremos outra coisa. Assim aconteceu com os encarregados.  Experimentaram o medo de não escrever bem. Sentiram a vergonha de escrever mal. Mas valera a pena e nunca mais Pedro Soares procurou sem encontrar a reunião diária dos encarregados.

 

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publicado por jose murta lourenço às 11:29

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